Por Vitor Marques: 100 dias de governo João Doria: a São Paulo virtual e a São Paulo real

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Empossados os novos governos, via de regra, é esperado que a população tenha uma receptividade e uma tolerância maior com aqueles que estão iniciando a nova gestão. Este período é conhecido no vocabulário político como “lua de mel” entre população e o governo eleito. Lembremos que a gestão Fernando Haddad não teve essa paciência por parte da população no início de seu governo, já que ocorridas as manifestações de Junho de 2013, o humor político de São Paulo e do país se contaminou.

Estes primeiros 100 dias não são suficientes para que os novos governos entreguem medidas concretas e consigam realizar transformações estruturais, mas é fundamental para indicar para onde pretendem caminhar ao longo dos próximos 4 anos.

Em São Paulo, superados os 100 dias, o que presenciamos é uma situação contraditória, como se, ao mesmo tempo, houvesse duas cidades.
Existe hoje uma São Paulo que, em média três vezes ao dia, é divulgada nas redes sociais por um grande comunicador; uma cidade agitada, que acorda cedo e dorme tarde; uma cidade que se movimenta, na qual o seu divulgador se locomove diariamente, passando por diversos lugares, ora vestido de gari, ora de pintor. Nessa cidade, as pessoas têm acesso ao que o comunicador realiza, podem acompanhar sua agenda e com isso, acabam tendo a sensação de estarem informadas, de que há uma cidade se modificando, melhorando a cada dia.

Esta cidade é a mesma que aparece nos jogos da seleção brasileira de futebol como “Cidade Linda”, em que “Linda” significa esconder as diferenças, as contradições sociais; criar uma ilusão de que desigualdade social não existe, formando-se, assim, uma cidade quase perfeita, sem as dificuldades existentes, as quais precisam ser enfrentadas com seriedade e compromisso público e não com atuação fantasiosa.
Por outro lado, há uma outra São Paulo, uma cidade real e silenciada que aos poucos e sem espaço na grande mídia para pedir socorro e divulgar o que está sofrendo, vai se esfacelando.

Esta São Paulo é a cidade que vê suas crianças perderem o transporte escolar no início do ano letivo; uma cidade em que 700 mil alunos do ensino fundamental ficarão sem leite, e aqueles que terão, receberão em menor quantidade, se antes eram 2kg, agora será 1,2 kg para crianças de até 1 ano, e, 1 kg para estudantes de até 6 anos.

O investimento na abertura de vagas em creches, objetivo perseguido do início ao fim do governo Haddad, obteve avanços consideráveis, totalizando 106 mil novas vagas, diminuindo assim, uma fila que no início de 2013 era de 180 mil crianças fora da escola. Este avanço foi possível a partir da iniciativa direta da própria Administração Municipal e de parcerias com entidades educacionais. Agora, o objetivo de abrir vagas em creches, será delegado para que entidades privadas encontrem fórmulas para viabiliza-las, almejando números positivos e descartando as condições em que se darão o aprendizado e o cuidado com as crianças. A promessa, feita em campanha, pelo comunicador João Doria de zerar a fila de espera das crianças por vagas em creches, no primeiro ano de governo, foi prontamente descartada pelo atual secretário de Educação, Alexandre Schneider. Não consta sequer do Plano de Metas apresentado pelo prefeito à Câmara Municipal.

Na mobilidade urbana, infelizmente, notamos um aumento de acidentes e mortes nas marginais com a medida eleitoreira de aumentar a velocidade máxima permitida, demonstrando nenhum compromisso público com a vida de cada ser humano que vive ou transita por São Paulo, desrespeitando orientação da Organização Mundial de Saúde para que os municípios do mundo todo reduzissem a velocidade nas vias.

Com a medida de reduzir a velocidade, a cidade de São Paulo, com o então prefeito Fernando Haddad, viveu por 19 meses sem nenhuma morte na Marginal do Tietê. Agora, após o aumento de João Doria, em apenas dois meses (25/01 a 26/03), houve um grande crescimento do número de acidentes (223) e ocorreram 3 mortes.

A saúde da São Paulo virtual promovida por seu comunicador informa que a fila de exames praticamente zerou. Entretanto, existe uma cidade real em que aproximadamente 120 mil pessoas deixaram a fila de exame, sem, contudo, realizar o exame. É triste ver, depois de muito esforço, farmácias populares fechando, falta de remédios e hospitais quase prontos, abandonados.

Após muitas batalhas e vitórias para a Cultura nos últimos 4 anos, com aumento de orçamento e a elaboração de uma Política Municipal de Cultura, com inúmeras iniciativas que promoveram a prática e o acesso a Cultura, incentivando a sua democratização e descentralização, a São Paulo real vêm ferozmente cortando investimentos, ao todo foram suprimidos 43% do orçamento, em que mais uma vez, o setor mais penalizado será a periferia. Não fossem os movimentos sociais organizados de Cultura, isto também ficaria em silêncio.

Enquanto prefeito, Fernando Haddad se esforçou para criar pontes e oportunidades para setores de São Paulo que muitas vezes são marginalizados das políticas públicas e do dia a dia da cidade. Políticas como o “De Braços Abertos” e o “Transcidadania” representaram para muitas pessoas o primeiro passo para sua reinserção social e para uma vida mais digna. Entretanto, silenciosamente, notamos estes programas serem desfeitos, e estas pessoas jogadas, mais uma vez, para a margem da cidade, descartadas como se fossem objetos.

São Paulo é múltipla, plural e diversa, onde cabem todas e todos, mas o que se percebe, é que o novo governo conduz a cidade para que ela seja de poucos, mantendo e aprofundando privilégios historicamente existentes. Na cidade virtual se vê o prefeito apertando a mão do morador de rua, mas na cidade real o que notamos é a intolerância, ódio e agressões a diversos setores.

É divulgado com muita euforia que a cidade está ficando mais eficiente, sobretudo porque agora, há capital privado, há parcerias chegando em São Paulo. A venda de imóveis que pertencem à cidade, e, portanto, a todos nós, é divulgado como se fosse a solução para os problemas cotidianos.

Ao vender imóveis importantes como estádio do Pacaembu, o Anhembi, o Autódromo de Interlagos e o mercadão Municipal, entre outros, São Paulo perde identidade, perde história, mas em especial, perde patrimônio. Se antes o incentivo era para que as pessoas se apropriassem da cidade, ocupassem os lugares, agora, o objetivo é tirar estes espaços das pessoas, vender, fechar, restringir o acesso a poucos privilegiados.
Existe hoje, na sociedade brasileira, a necessidade de que as informações sejam cada vez mais públicas, para que assim, possa haver acompanhamento, sugestões e cobrança popular. O governo de João Doria faz justamente o contrário. Divulga aquilo que garanta sua visibilidade e esconde reclamações, como ocorreu em relação às demandas da população sobre questões de zeladoria.

Fernando Haddad apresentou um Plano de Metas ousado, com 123 metas robustas, com etapas bem definidas e objetivos concretos. Já João Doria, apresenta uma lista de 50 boas e tímidas intenções, sem método e caminhos delimitados para se alcançar e de difícil acompanhamento, pois não têm metas físicas. O único dado certo e apresentado é que as 80 promessas que o comunicador fez em campanha, sorrateiramente, desapareceram.

Objetivamente, temos hoje duas cidades, uma cheia de ilusões, divulgada na imprensa, em redes sociais, cheia de curtidas e compartilhamentos, mas virtual. E outra real, que vem perdendo conquistas, regredindo em civilização, ficando mais perigosa, excluindo pessoas, aumentando as agruras daqueles que mais precisam de um poder público presente na realidade, deixando assim, a cidade mais cinza, não só na cor das avenidas, mas nas esperanças, nos sonhos, sobretudo, dos mais humildes.

Estas duas cidades que hoje coexistem, mesmo que com pouco tempo, nos indicam algumas consequências. A São Paulo virtual é uma tática demagógica para quem quer se promover rapidamente e acumular poder para alçar outros vôos eleitorais. João Doria ao implementar uma agenda de promoção pessoal e abandono da cidade real, sinaliza que não seguirá prefeito por 4 anos. Por outro lado, ao se concretizar os rumos apontados pelos 100 primeiros dias de seu desgoverno, chegaremos em 2020 com inúmeras perdas em todas as áreas, em especial para as pessoas mais carentes, sacrificadas no fogo da vaidade por um suposto gestor que como prefeito, terá sido um excelente marqueteiro de si mesmo.

Vitor Marques, advogado e professor assistente em Direito Administrativo na PUC-SP; está secretário municipal de Juventude do PT de São Paulo.

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